domingo, 11 de agosto de 2013

ONZE DE AGOSTO

HOJE É ONZE DE AGOSTO
FALAR LATIM, DAR NÓ DE GRAVATA E BEBER CERVEJA...
QUE TEM ISSO A VER COM A MORTE DE HERZOG?

Há 55 anos fui aprovado e comecei meu curso nas Arcadas.
Os veteranos do Onze de Agosto diziam – Aqui você pode estudar e aprender muita coisa, mas basta falar Latim, saber dar nó em gravata e saber beber cerveja, que será diplomado e será um bom advogado...

No correr do curso, além de adotar o nó de gravata que se desmancha simplesmente puxando, sem dar nó cego, deu pra entender que o bom advogado não apenas comparece de gravata ao serviço, pois sabe dar nó em processos, guardando sempre o modo de desfazer o nó... Já quanto a falar Latim, como os termos do direito romano são em Latim, a linguagem tabelioa e os termos judiciais utilizam o Latim, o advogado acompanha. Beber cerveja não nos parecia algo recomendável, mas, agir sem deixar qualquer sucesso subir à cabeça, isto é saber ser comedido nas bebidas e comidas.

O tempo passou. Alguns trabalhos jurídicos aconteceram. Problemas me levaram a uma úlcera e aos 40 anos fiquei sem estômago, ameaçado de só aguentar mais 8 anos se tivesse muito cuidado com bebidas e comidas... Era começo de 1975.

Tirei a gravata. Deixei de considerar-me advogado. Fiquei longe do Latim. Beber cerveja? Nem sonhar.

Estava ainda em vigência o AI5. Vi nos jornais a foto de W.Herzog supostamente acusado de suicídio na prisão.

Dias depois cruzo na rua com um “camarada” que não sabia que eu há muito havia abandonado os “cumpanheros” por não concordar com a violência.
Após os cumprimentos e minha explicação da cirurgia, ele perguntou: “Paga uma cerveja pra mim?”
Concordei. Assentamos num bar do centro de SP. Não deixei encher meu copo e fui perguntando: “Como se sente com a repressão?” Responde ele: “Não temos grandes problemas... Estamos infiltrados em toda parte...” Continuei: “Viu o Herzog? Nenhum de nós pode aceitar suicídio, após ver aquela foto...”
Após mais uma cerveja ele completou:”Foi uma bênção para o Partidão essa morte.”
Mais uma cerveja e ele comentou: “Foi um camarada encarregado de fazer o trabalho... Foi lá e outro camarada lhe abriu o caminho como amigo que ia consolar o jornalista... E depois, não havia registro dessa visita.” Revidei: “Mas, como isso pode aproveitar ao PC?” Com uma boa risada, após esvaziar mais um copo, completa ele:”O Wladô era judeu... Burguês, classe média. Escrevia muito bem. Porém era contra a revolução armada. Agora atiramos a culpa nos militares, ao mesmo tempo que ficamos livres de um companheiro inconveniente”.

Ele já não estaria enxergando bem. Não percebeu que fiquei gelado. Eu também sabia ter ascendência dos ladinos da Espanha... Também tinha renda de classe média. Também gostava de escrever e recebi elogios pelas redações. E também havia deixado os que queriam terror...  

Paguei a conta e segui meu caminho, que passava pelo Largo de São Francisco. Relembrei os tempos de estudante. Monologuei: “Dar nó de gravata... Assim se foi o Wladô... Beber cerveja? Nem pensar. Falar Latim? Nem poderia contar isso a ninguém, em Latim ou em qualquer língua! Como fazer as provas?”

Passei muitos anos relembrando essa noite, com um nó na garganta.

Hoje é Onze de agosto.

Agora posso dizer – Eu entendi nessa noite de 1975 o verdadeiro significado de “Saber o que é falar, ou calar, em Latim; saber dar nó em gravata; saber beber ou não beber cerveja”.

COMENTÁRIO
DIRIA KONGFUTZÉ – A GRANDE SABEDORIA PARA A PERFEIÇÃO DE NOSSA CONVIVÊNCIA É NÃO FAZER AOS OUTROS O QUE NÃO QUEREMOS QUE NOS FAÇAM.
















2 comentários:

Carol Panaro disse...

Mário Sanchez, essa história aconteceu com vc, pertence à outro, ou é apenas um conto ficticio? Gostaria de saber, afim de agregar meus estudos sobre o Regime Militar.
Obrigada

Mário Sanchez disse...

Prezada Carol
Foi bom você falar em ficção. Leu?
http://mariosanchezs.blogspot.com.br/2015/10/pessoa-humana-uma-ficcao.html